Garagem Hermética

Texto – Fabrício Silveira

 

A Fantástica Fábrica é um livro delicioso. Não consegui parar de ler. Leo Felipe nos apresenta um relato corajosamente franco, irônico, às vezes, hilário, sobre o Garagem Hermética, bar que comandou durante boa parte da década de 1990. Tratava-se de um ponto de encontro obrigatório, um parque de diversões do underground rockeiro do cidade.
Por ali passou muita gente (assombrações, Otto Guerra, Edu K perneta, Júpiter Maçã, ilustres conhecidos, ilustres desconhecidos, ilustradores e cineastas independentes). Ali aconteceu muita coisa (brigas, amores, quedas, pinduras, concertos desastrosos, atraques policiais). O livro faz justiça a isto tudo. É como se o Garagem tivesse existido para se tornar um livro. Sem ser nostálgico nem saudosista, A Fantástica Fábrica faz um brinde à memória e à experiência que nos vinculam ao presente. É uma leitura altamente recomendável.

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Em 1996, vim morar definitivamente em Porto Alegre. Naquele ano, no primeiro sábado de fevereiro, saí à noite, para me divertir, na condição tranquilizadora de morador da cidade. Fui ao Garagem Hermética, um bar que eu ainda não conhecia mas do qual já tinha ouvido falar. Fábio Pinto, meu antigo amigo de Santa Maria, me acompanhava, compartilhando comigo não só a nova moradia, o mesmo endereço, mas também os mesmos ânimos e o mesmo destino naquela noite. Ao longo da semana, nós havíamos acabado de fazer a mudança, acertando todos os detalhes relativos ao apartamento que iríamos dividir. Para nós, aquele sábado à noite era, portanto, uma celebração especial, a assinatura de um contrato, quase literalmente. Fomos então ao Garagem. Lá, ficamos escorados junto ao balcão do bar, por algum tempo, tomando algumas cervejas. Estávamos felizes, conversando sobre o que nos reservaria a vida em Porto Alegre, a partir dali. Ao nosso lado, havia um outro sujeito, sozinho, tão inebriado quanto nós, atento como ninguém às músicas e às movimentações gerais. Logo em seguida, passamos a conversar, os três, muito animados. O cara se chamava Murilo Biff, havia sido aprovado na UFRGS e aquele também era seu primeiro sábado à noite na capital dos gaúchos.

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No Garagem, sempre travávamos discussões acaloradas, repletas de ironia e cheias de referências pop. Eram debates que se aprofundavam, movidos pela música e não só pela música, pelo ambiente todo que nos circundava, pelos estranhos que conhecíamos e aos quais resolvíamos dar atenção, porque realmente valia a pena dar-lhes atenção. Certa vez, alguém se referiu ao bar chamando-o de “Garagem Hermenêutica”, numa demonstração de humor típica dos jovens universitários santa-marienses. Para mim, foi uma epifania. Hoje, em minhas pesquisas sobre música pop, penso em retomar este termo. Afinal, é um termo muito forte, com suas assonâncias rockeiras, as memórias e as informações que deixa implícitas. O Garagem é um lugar para pensar.

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Comemorei o Natal de 1999 no Garagem Hermética. A banda Floricultura havia sido convidada para tocar, dentre outros conjuntos, para animar a festa organizada pelo Cardoso OnLine. Fui o baixista convidado para atuar no evento. A Floricultura tocaria após um grupo chamado Malditos Ácaros do Microcosmo – noise, freak, nu metal de Curitiba. Quando chegou a hora, subimos ao palco e fizemos nosso show típico: desafinação, atonalismo, polirritmia, desordem, impropérios, nonsense e improvisos descontrolados. Literalmente, um show da Floricultura. Lembro-me que o público foi saindo do recinto, aos poucos. Lembro-me que dois completos desconhecidos, não sei como, muito menos a convite de quem, apareceram com seus instrumentos, juntaram-se a nós e também tocaram, aumentando não só a formação da banda mas o caos e o barulho produzidos naquele duvidoso concerto. Naquela oportunidade, toquei num dos contrabaixos mais estranhos e difíceis que já chegaram às minhas mãos. Como não tínhamos instrumentos e deixávamos para utilizar o que aparecesse na hora, aquilo que conseguíssemos emprestado, precisei contar com a compreensão e a boa vontade dos músicos que nos antecederam. Mas o baixista da Malditos Ácaros era canhoto. Eu sou destro. O baixo que ele usava possuía duas cordas, apenas, e não havia como alterar a afinação: as tarrachas eram rígidas, fixadas para sempre, dois ou três tons abaixo do normal. Àquela altura, não havia mais nada a fazer. Foi, enfim, um espetáculo bizarro, obviamente, a um só tempo constrangedor e libertador,
catártico e vexatório. Quando saímos do palco, um amigo que havia ficado até o final, veio
até nós e disse, desolado, lamentando o que havia acontecido:
– Vocês perderam a chance de fazer sucesso em Porto Alegre.
Começamos a rir desesperadamente, sem arrependimento algum.

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Acho muito eloquente também o fato de que o Garagem tenha passado por duas fases muito distintas, a do “velho garagem”, a fase clássica, e a fase do bar anódino, perdido num descompasso histórico, cópia pálida de si mesmo, tentando sobreviver às custas de uma memória recente, um passado mítico. Ao longo dos anos 2000, o Garagem tentou sobreviver às custas do “primeiro Garagem”, velho potente. Porém, nunca se resolveu, nunca decolou porque não soube exorcizar os fantasmas primordiais. Permaneceu preso a eles até sucumbir completamente. Leo Felipe conclui o livro dizendo que “não termina quando acaba”. Acho a frase ótima. Reconhecermos, portanto, a tensão histórica entre as duas fases é muito significativo: primeiro, porque as bandas de rock também são assim (e o rock nunca termina quando acaba); segundo, porque a fase inglória, em sua
pasmaceira, também poderia render um belo livro; terceiro, porque a trajetória completa do bar está nos ensinando algo sobre a importância de saber morrer. Saber morrer para poder ser lembrado.


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Referências bibliográficas
FELIPE, Leonardo. A Fantástica Fábrica. Porto Alegre – RS: Publicatto Editora, 2014.

 

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